O Calor da Terra Que o Google Quer Usar para Alimentar a IA
A startup Fervo Energy pegou a tecnologia que fez os EUA dominarem o petróleo e a virou de cabeça para baixo — com o Google como parceiro e o calor da Terra como combustível.
Existe uma ironia elegante no coração desta história. A tecnologia que ajudou a tornar os Estados Unidos no maior produtor de petróleo do mundo — a perfuração horizontal combinada com o fraturamento hidráulico, mais conhecida como fracking — pode ser a mesma que vai ajudar a internet a funcionar sem queimar combustíveis fósseis.
Essa é a aposta da Fervo Energy, uma startup sediada em Houston, no estado americano do Texas — epicentro histórico da indústria do petróleo. E o Google está do outro lado da mesa, como investidor, cliente e parceiro estratégico de longo prazo.
Uma tecnologia velha com um truque novo
A energia geotérmica não é nenhuma novidade. A primeira usina geotérmica do mundo foi construída na Itália há mais de 100 anos. Desde então, países como Islândia, Nova Zelândia e Quênia transformaram o calor vindo do interior da Terra em parte estrutural de suas matrizes energéticas. Na Islândia, por exemplo, o governo respondeu à crise do petróleo dos anos 1970 substituindo o óleo pelo calor geotérmico no aquecimento urbano, o que reduziu significativamente os custos de energia do país.
O problema sempre foi o mesmo: a geotermia tradicional exige que você perfure em direção a geologia muito quente, rasa e naturalmente produtiva. Sem essas condições específicas, o projeto simplesmente não é economicamente viável. Em outras palavras, geotermia era um privilégio geológico — algo reservado a quem tinha a sorte de morar em cima de vulcões.
A Fervo veio para quebrar esse pressuposto.
Fracking a serviço do verde
A lógica da empresa é ao mesmo tempo simples e ousada: pegar as técnicas de perfuração horizontal e fraturamento hidráulico que transformaram os EUA em potência petrolífera e aplicá-las na extração de calor da rocha. “Perfuração é perfuração”, resume Sarah Jewett, vice-presidente de estratégia da Fervo. “Esse foi o momento ‘eureka’ que os fundadores tiveram quando criaram o negócio.”
A diferença fundamental em relação à geotermia convencional está na profundidade e na engenharia do subsolo. O método da Fervo, chamado de Enhanced Geothermal System (EGS), permite acessar reservas a até 3.600 metros de profundidade — em comparação com os 600 metros dos poços geotérmicos tradicionais. Em vez de esperar encontrar rocha naturalmente permeável e vapor pronto para ser capturado, a empresa cria as condições necessárias: perfura horizontalmente, fractura a rocha para torná-la permeável, injeta água fria por um poço e extrai a água aquecida pelo calor da rocha por outro.
Cabos de fibra óptica instalados dentro dos poços permitem monitorar em tempo real a temperatura, o fluxo e o comportamento do reservatório com uma resolução nunca antes possível.
O resultado é uma fonte de energia que pode, em teoria, funcionar em qualquer lugar do planeta onde haja rocha quente a profundidade suficiente. “Rocha quente existe em todo lugar. É só uma questão de quão fundo ela está e se é economicamente viável chegar até ela”, diz Jewett.
Do piloto à usina: a prova de que funciona
Em 2023, a Fervo ligou o Project Red, em Nevada — o primeiro sistema EGS de poços horizontais do mundo e, por mais de 600 dias de operação contínua, o sistema geotérmico aprimorado com maior histórico operacional da história. O projeto nasceu de uma parceria direta com o Google, que buscava energia limpa e disponível 24 horas por dia para alimentar seus data centers na região.
Os resultados foram além das expectativas. O teste de 30 dias — padrão da indústria geotérmica — atingiu uma vazão de 63 litros por segundo a alta temperatura, possibilitando 3,5 MW de produção elétrica e estabelecendo novos recordes mundiais de vazão e potência para um sistema EGS.
Mas o mais importante foi o que os dados de longo prazo mostraram: não apenas que a tecnologia funciona, mas que ela melhora com a experiência. No projeto Cape Station, em Utah, a Fervo reduziu o tempo de perfuração em 70% em comparação com seu primeiro poço horizontal, e os custos de perfuração caíram de US$ 9,4 milhões para US$ 4,8 milhões entre os primeiros quatro poços horizontais. É a curva de aprendizado industrial em ação — o mesmo fenômeno que tornou os painéis solares 90% mais baratos em uma década.
Google como cliente, investidor e parceiro estratégico
A relação entre Google e Fervo evoluiu de forma consistente ao longo dos anos. Em 2021, as duas empresas assinaram o primeiro acordo corporativo do mundo para desenvolvimento de um projeto geotérmico de nova geração. Em 2023, o Project Red entrou em operação. Em 2025, o Google participou de uma rodada de US$ 462 milhões na startup. Com o acordo aprovado em Nevada, a capacidade geotérmica viabilizada pelo Google cresceu quase 30 vezes desde o piloto inicial com a Fervo.
E em março de 2026, a relação deu um salto de escala sem precedentes. O Google e a Fervo assinaram um Geothermal Framework Agreement que estabelece uma estrutura de desenvolvimento de até 3 gigawatts de capacidade geotérmica até 2033, incluindo 1 gigawatt de projetos propostos nos primeiros dois anos.
Para ter uma dimensão do que isso significa: o Departamento de Energia dos EUA estima que a energia geotérmica poderia fornecer até 120 gigawatts de capacidade firme e flexível para os Estados Unidos. O Google está sozinho se comprometendo com 2,5% dessa meta total.
IPO de US$ 2,2 bilhões e a virada da geotermia
Em maio de 2026, a Fervo abriu seu capital na Nasdaq. A oferta pública inicial levantou aproximadamente US$ 2,2 bilhões, com 80,5 milhões de ações emitidas a US$ 27 cada. O IPO foi considerado não apenas um marco financeiro para a empresa, mas um sinal de maturidade de toda a categoria de geotermia aprimorada.
O financiamento não recorrente de US$ 421 milhões para o Cape Station, subscrito por RBC, Barclays, HSBC e J.P. Morgan, foi a primeira vez que um sindicato de primeira linha financiou um projeto EGS pioneiro sem o respaldo do programa de empréstimos do Departamento de Energia americano. Em outras palavras: os grandes bancos passaram a considerar a geotermia aprimorada um ativo maduro o suficiente para financiar sem garantia governamental.
O Cape Station, em Utah, é o projeto que transformou o setor. Com início das obras em 2023, está a caminho de começar a enviar eletricidade para a rede no final de 2026. Quinhentos megawatts estão em construção no local, mas a Fervo tem licenças para quadruplicar essa capacidade.
Por que isso importa além do Google
A demanda por energia elétrica ininterrupta é o grande problema não resolvido da transição energética. Solar e eólica são intermitentes por natureza — o sol não brilha à noite, o vento não sopra sempre. Baterias ajudam, mas têm limitações de escala e custo. A energia nuclear oferece firmeza, mas enfrenta décadas de desgaste político e de imagem.
A geotermia fornece energia firme 24 horas por dia, 7 dias por semana — e é exatamente isso que os data centers precisam, especialmente os que alimentam cargas de trabalho de inteligência artificial. Não é coincidência que o setor de data centers esteja puxando 60% da nova capacidade geotérmica em desenvolvimento nos EUA.
Em 2025, empresas de tecnologia assinaram 14 acordos de compra de energia geotérmica totalizando 635 MW — três vezes mais do que em 2024. Além do Google, Meta assinou contratos com a Sage Geosystems e a XGS Energy. O movimento é claro: as big techs estão usando seu poder de compra para viabilizar fontes de energia que ainda não seriam economicamente competitivas sem âncoras de longo prazo.
É um modelo que já vimos funcionar antes. Foi exatamente assim que os contratos de energia solar das grandes empresas de tecnologia ajudaram a derrubar os custos dos painéis fotovoltaicos na década passada. A pergunta agora é se a geotermia vai repetir essa trajetória — e em quanto tempo.







